dezembro 15, 2011

Um amigo por uma garota

- O que você acha?
Eu perguntei a Aline ao mostrar minha jaqueta com a letra K estampada nas costas. Ela se fez de contente e disse que Katarina ficaria feliz. Havia uma semana que eu tinha conhecido Aline. Ela atravessou meu caminho depois que Ravier se interessou por ela. Era festa do padroeiro na cidade, gente pipocando de toda parte, barraquinhas de camelôs fazendo fila na praça. O parque de diversão, que chegava todo ano na mesma época, era o ponto de encontro certo depois da novena.
Por lá, Ravier e eu circulávamos toda noite. Andávamos em alguns brinquedos e depois tomávamos um sorvete ou comprávamos pipoca. A casa dele era quase ao lado, então, muitas vezes íamos até lá beber água e conversar qualquer coisa, enquanto o movimento no parque aumentava. Encontramos, certa vez, uma pistolinha d’água em um camelô e sempre a levávamos conosco. Quando estávamos nos brinquedos mais altos, atirávamos lá de cima e os pingos caíam nas pessoas que passavam. Nos divertíamos muito com isso.
Foi em uma dessas noites, que Ravier chegou pra mim e disse que estava interessado em uma garota. A princípio bateu aquele ciúme. Poxa, ele vai ficar com essa menina agora e adeus nossa diversão. Mas depois a situação pareceu bem divertida. Nos aproximamos dela e das amigas e começamos a fazer amizade. Ravier, bem mais desenrolado do que eu, logo estava íntimo, só não tinha coragem ainda de se declarar para Aline. E foi aí que eu entrei na história. Ele comprou uma flor perfumada, dessas que vendem nas barraquinhas, me pediu que entregasse a ela e lhe perguntasse se queria ser sua namorada.
Não me agradava nem um pouco aquela tarefa de cupido, me parecia uma perda de tempo, era muito melhor estar na fila para o autopista ou o King Polvo, mas não podia fazer aquela desfeita com Ravier. O futuro amoroso dele estava nas minhas mãos, e como melhor amigo, tinha a obrigação de ajudar. E assim aconteceu. Ravier me entregou a flor e desapareceu no parque. Era minha hora de agir. Com a rosa na mão, olhei em volta e vi Aline conversando com as amigas. Meio sem jeito, me aproximei e fiz sinal para ela vir até mim. Assim que ela chegou, entreguei a flor.
- Ravier pediu pra te entregar. Ele quer saber se você quer namorar com ele.
Aline se mostrou bastante surpresa, cheirou a flor, olhou em volta na procura de Ravier, mas declinou do pedido. Disse que gostava muito dele, mas como amigo. Eu já estava saindo, quando ela me puxou.
- Ei... mas eu sei quem tá gostando de você.
- Quem? – perguntei completamente surpreso.
- Katarina.
Katarina tinha feito parte da minha vida alguns anos antes. Eu e ela chegamos a dublar Sandy e Junior em eventos de escola e festinhas na minha casa. Mas ela nunca demonstrou nenhum interesse em mim. E agora aquela menina, que eu mal conhecia, dizia que Katarina estava gostando de mim. Seria possível? Aline se explicou. Ela e Katarina estavam estudando juntas agora e a amiga tinha lhe confessado sua paixão por mim. Mas segredo! Katarina não poderia saber que Aline tinha me contado.
Ainda no susto, prometi não contar nada e saí, fui em busca de Ravier, dizer-lhe que Aline não tinha aceitado seu pedido de namoro. Era sua primeira decepção, mas ele não deixaria se abalar. Compramos entrada para o autopista e fomos nos divertir.
No dia seguinte, voltei a pensar no que Aline tinha me dito sobre Katarina. Seria mesmo verdade que ela estivesse a fim de mim? Mas nem foi preciso usar muito meus neurônios. Na mesma noite, Aline foi ao nosso encontro reforçar seu boato sobre Katarina. Não havia o menor embaraço entre ela e Ravier. Parecia que nada tinha acontecido na noite anterior. Conversavam e riam como bons amigos. E assim se repetiu outras vezes. Aline estava cada vez mais ligada a nós. Já me sentia totalmente à vontade em sua presença. Cada noite ela trazia uma novidade de sua amiga, que tinha falado em mim, escrito meu nome no caderno. Até o dia em que apareci com a jaqueta que tinha um grande K nas costas. Era meu aviso de que estava gostando de embarcar naquela aventura. Até que minha mãe me alertou.
- Deixa de ser bobo. Você num tá vendo que é Aline quem tá a fim de você?
Não acreditei. Não poderia ser verdade. Ela não mentiria para mim. Assim que a encontrasse no parque aquela noite iria tomar satisfações. Ravier quis saber se eu tinha pretensões de namorá-la no caso de ser verdade. Eu sabia que ele ainda gostava dela, e automaticamente garanti que não. Mas quando ela chegou e confessou a verdade depois de muito relutar, não consegui dizer não, diante de seus olhos cheios de amor por mim. Mas e o amor de Ravier? Não consegui usar a lógica, nem pesar os valores. Não queria perder a amizade dele, nem desapontar Aline, e assim cedi ao seu pedido. Ravier ficou arrasado.
Apesar de ser a favor de me ver ao lado de Aline, minha mãe se preocupou com Ravier, afinal, ele era quase outro filho para ela. Eu me sentia muito mal, não queria estar fazendo aquilo com ele, mas por alguma razão, me sentia na obrigação de corresponder a Aline. Eu ainda não havia entendido que o homem também poderia recusar um pedido de namoro. O machismo é um mal aos homens também. Ravier foi para os fundos do parque e sentou solitário em um banco. Minha mãe foi até lá, evitar que minha imaturidade estragasse nossa relação. De cima do King Polvo com Aline, eu vi os dois. Me deu uma vontade louca de descer lá e pedir perdão de joelhos a ele. Olhei para Aline ali do meu lado sorridente e deu vontade de jogá-la lá de cima.
Era evidente que eu não estava agindo com o coração. Mas com que diabo de órgão estava agindo então? Minha sorte é que Ravier era uma alma pura, e passado o momento de desilusão, já estava de volta ao meu lado, sem eu nem ao menos me desculpar. Nos dias seguintes, voltou a ser o moleque sorridente e brincalhão de sempre. Tirou foto de Aline comigo, me ajudou a escolher bijuteria para ela nos camelôs. Virou o padrinho do nosso namoro. Aline conseguiu ainda muitos favores de mim com seu jeito ardiloso de alcançar os objetivos. Ela me apresentou o ciúme, as DRs, e me cobrou a atitude de homem. Com tudo isso, nosso namoro ainda chegou a dois meses. A amizade de Ravier durou mais um pouquinho. E Katarina... Essa nunca se interessou por mim.

dezembro 10, 2011

Ravier

Quando minha mãe resolveu me entrosar de novo com dois amigos da minha infância, eu sabia que sua intenção era encontrar um grupo de amigos ou mesmo um único menino que fosse capaz de me tirar de casa. Ao contrário da imagem "normal" de mães que desejam os filhos sempre em casa, adiando a mocidade o máximo possível, minha mãe queria me ver na rua, saindo com os amigos, paquerando e levando namorada pra família conhecer. Às vezes eu penso que se tivesse sido um garoto rueiro, minha mãe faria o impossível para me trancar em casa. Ninguém nunca está satisfeito com o que tem. E assim aconteceu naquela noite, em uma das novenas da festa do padroeiro. Eu, como sempre acuado ao lado dela, me sentia muito bem sozinho, enquanto ela admirava os meninos da minha idade que circulavam em bandos pela praça da igreja, feito "rapazinhos". Não, aquela situação não poderia continuar! Seu filho precisava sair como os outros. Ela daria seu jeito.
Durante a festa do padroeiro, todo mundo que já tinha dado adeus ao futuro miserável da cidade, retornava para mostrar como estava bem de vida. A mãe de Wesley não deixaria de obedecer a regra. Mãe solteira ainda jovem, aprontou todas para conseguir driblar o compromisso da maternidade e curtir sua juventude. Minha mãe, como boa vizinha, ficou muitas noites com Wesley ainda pequeno, enquanto ela se divertia. Logo nasceu uma amizade entre a gente. Talvez tenha sido meu primeiro amigo. Sempre estávamos ali pela rua ou calçada de casa com uma brincadeira nova. Foi em uma dessas ocasiões que conheci o primo dele, Ravier. Não tenho lembranças dessa época, era muito pequeno. Tudo que sei sobre esse período foi relatado por minha mãe. Por isso, não recordava de Ravier quando minha mãe resolveu nos reaproximar.
Wesley e sua mãe estavam na cidade para as festividades religiosas. Ao tomar conhecimento dessa informação, minha mãe sentiu que talvez fosse uma boa oportunidade de seu filho estabelecer novas amizades e, consequentemente, andar em bando pela cidade. Para sua sorte, Wesley e Ravier estavam sentados próximos a nós na praça da igreja durante aquela novena. Por um bom tempo, minha mãe insistiu para que eu fosse até eles conversar. Mas conversar o quê? Fazia tanto tempo que eu não via Wesley, e Ravier então, mal recordava. Mas minha mãe estava convicta em seu objetivo. Contra minha vontade, se aproximou deles e puxou assunto, perguntando pela mãe de Wesley e recordando momentos do passado, até me introduzir na história e me chamar até eles. Cheguei lá e fiquei observando os dois, enquanto minha mãe debulhava o quanto éramos amigos e ainda poderíamos ser, convidando os dois a irem na nossa casa qualquer dia para sairmos. Apesar da vergonha e da timidez presentes, nunca consegui esquecer o sorriso de Ravier ao dizer: "se a preguiça deixar".
Os futuros encontros e as saídas de casa à noite, para a alegria da minha mãe, se mostraram promissores. Estávamos nos redescobrindo, agora com toda a experiência de Wesley na capital. As conversas saíam espontâneas, fui me deixando jogar, e logo estava realmente me divertindo com os dois. Afinal, sair com os amigos era mesmo muito bom, minha mãe poderia estar certa. Nesse período, que não durou mais do que uma semana, comecei a descobrir o valor da amizade. Já não queria ficar no meu mundinho em casa, e isso era perturbador. Estava fazendo algo que me dava prazer e agradava minha mãe ao mesmo tempo. Que estranho! Alguma coisa estava errada. Me recordo até de irmos a um cinema que inventaram na cidade, que nada mais era do que uma tevê de 20 polegadas ligada em uma sala simples. Mas não deixava de ser uma novidade. Foi aí que comecei a partilhar de uma mesma paixão de Ravier, Os Cavaleiros do Zodíaco.
Quando Wesley foi embora, alguma coisa tinha nascido entre mim e Ravier, e isso nos manteve unidos. Voltamos a sair à noite, agora só nós dois. Aqui acolá, aparecia um amigo dele que eu não conhecia e isso me deixava levemente enciumado. Tinha demorado muito para encontrar um amigo, e demorado mais ainda para me sentir à vontade com algum, portanto, Ravier era 'meu' amigo, só meu. Não queria dividi-lo com mais ninguém, e nem queria sair a três, porque não me sentia totalmente desinibido com seus amigos. Mas nunca comentei nada a respeito com ele. Tinha medo de colocar nossa amizade em risco, e suportava calado dividi-lo com outros. Embora com o passar do tempo, fui percebendo que eu era seu amigo mais constante, e uma forte amizade não tardou a se firmar entre nós.
Quase toda noite, ele ia até minha casa e saíamos pela cidade, explorando novos lugares, novas ruas, conversando, rindo. Eu adorava a expressão do seu rosto quando sorria. Ele fechava os olhos e o sorriso moleque saía fazendo uma covinha nos dois lados da bochecha. Eu tinha uma admiração absurda por ele, dizia pra mim mesmo que colocaria seu nome um dia em meu filho, e imaginava a sorte que o pai dele tinha em ter um filho tão especial e poder abraçá-lo toda manhã. A cada dia ele se fazia mais presente na minha vida, com minha mãe o tratando como outro filho. Ele passou a mudar o corte de cabelo influenciado por ela, dormia lá em casa algumas noites, recebia beijinhos e era tratado a pão-de-ló. Eu gostava disso. De certo modo era o irmão que eu nunca tive.
Seu jeito espontâneo de ser, acabou conquistando mais um membro da família. Meu pai foi um grande incentivador da nossa amizade e adorava conversar com ele quando eu ia passar os domingos no seu sítio. Ravier costumava dizer que queria ser padre, e meu pai o incentivava a me levar junto, para desconforto total da minha mãe. Lá no sítio, nós tomávamos banho de piscina, percorríamos todas as plantações da casa, os pés de manga, carambola, acerola, goiaba. Brincávamos com os cachorros, com os patos. Chegamos a nadar nu uma vez pra saber como era. Tudo recheado de muita inocência e de uma certa curiosidade minha. Eu sempre me fazia de desinteressado em algo que tinha muito interesse. Foi assim que ele me contou que tinha cortado seus pelos pubianos, quando eu nem imaginava que ele já os tivesse. Ele trocava de roupa na minha frente quando eu ia à sua casa, apesar de vestir a cueca sempre sentado e muito depressa. De fato, éramos íntimos.
Com Ravier, dividi momentos preciosos da minha vida, falei de animais, amigos, amores, dei risadas, fiz pipocas, troquei presentes, fui à missa, confidenciei segredos, guardei outros, colecionei figurinhas dos Cavaleiros do Zodíaco, e me surpreendi quando ele me deu seus pôsters que guardo até hoje. Nossa amizade foi até o limite máximo onde dois amigos não podem ultrapassar. Mas eu queria mais. E essa sede, somada à minha falta de tato em controlar meu egoísmo, esgarçou a nossa amizade causando inevitavelmente seu fim. Comecei a tratá-lo mal por qualquer besteira, a ignorá-lo. Não sei o que pensava que conseguiria com isso, mas fui matando em mim tudo de lindo que já tínhamos construído. Fui relapso, não soube lapidar o bem precioso que possuía e perdi o único e verdadeiro amigo que eu já tivera. Ficamos um tempo sem nos falar enquanto a vida nos lançava a destinos opostos. Quando voltei a reencontrá-lo, já estava para entrar na faculdade. Eu o procurei. A consciência por ter sido o culpado de perder nossa amizade nunca me abandonou. Talvez ainda não fosse tarde para corrigir alguns erros.
E realmente não era tarde para me reaproximar de Ravier, mas era tarde para partilhar de sua amizade. Apesar dele se mostrar receptivo e disposto a refazer os laços, nossos destinos estão cortados pela distância, e o máximo que podemos ter agora são conversas pelo messenger. E não me sinto capaz de manter essa relação. Quando estou diante dele perco as ideias. O remorso toma conta de mim. Aquele garoto que me conhecia a fundo, agora me deixa mudo. Uma determinada noite, quando menos esperava, sentado na cama e mexendo no computador no escuro do quarto, escuto vozes subindo as escadas e ao olhar, o mesmo sorriso moleque, o mesmo olho puxadinho, as mesmas covinhas. Não podia receber Ravier naquele estado, estava horrível, minha mãe devia ter me avisado. Ele e a namorada tinham ido me fazer uma rápida visita. Alguns papos em dia. - "Wesley já é pai, mas não se casou, como a mãe". Fiquei o observando. Agora, com a consciência de que era amor de verdade o que sentia por ele, posso afirmar realmente que o primeiro amor nunca se apaga. Vê-lo é suficiente para um redemoinho começar a se formar no meu peito. Podia reconhecer um tracinho do 'meu' Ravier naquelas mãos com as unhas bem cortadas, no corte de cabelo moderno, nos mesmos braços de antes, naqueles pés escondidos no tênis da moda, nos dedos entrecortados aos da namorada. Puxa, que inveja dela! E que sorte! Terá um cara sensível, carinhoso, simples e companheiro ao seu lado, se souber conservar. A mim sobram apenas as memórias de nosso tempo. Recortes alheios e silenciosos como o bilhetinho de natal que encontrei por acaso nos papéis antigos:

"Que Papai Noel lhe traga tudo de bom que você pediu e mais alguma coisa que você esqueceu. 
Feliz Natal". Ravier.

dezembro 07, 2011

O encontro [parte II] - O Beijo

             Já era a terceira rua que a gente atravessava sem sequer saber aonde iríamos. O silêncio se fazia majestoso, enquanto minha mente borbulhava. Quais seriam as intenções de Kelly comigo? Será que ela pensava que eu era um garanhão que saía pegando todas do catecismo? O que aconteceria se eu não soubesse beijá-la? Será que eu devia pegar em sua mão? Onde isso tudo iria terminar? Diante de todas as interrogações, uma preocupação era constante: “como me livrar dessa situação?”. Sempre um pouco atrás de nós, revezando no comando e garupa da bicicleta, Ritinha e Ravier, como dois cães de guarda.
             - Por que vocês não vão pro Clube do Além?
             Foi a sugestão de Ravier. O Clube do Além era uma pequena casa de eventos da cidade, construída em um local ermo cercado de matagal, justamente para evitar reclamações de vizinhos. O clube não funcionava todo dia, e a intenção de Ravier ao sugerir o local era simplesmente por ser afastado. Olhei para Kelly e senti ali que meu destino estava traçado.
            Não demorou muito e nos aproximamos do tal clube. De onde estávamos, uma imensa escuridão nos separava da lâmpada que iluminava a entrada do Clube do Além. Agora entendia por que ele tinha esse nome, o lugar era mesmo sombrio. Ritinha e Ravier entenderam que era hora de se afastarem. Chegara o momento de Kelly e eu namorarmos. Mas antes eles se comprometeram a ficar nas redondezas para se certificar mesmo que a mãe de Kelly não iria aparecer. Tão dedicados! Naquela hora desejei muito ser Ravier e representar o seu papel de cupido, ao invés do flechado. Se inveja matasse, eu teria tido um ataque fulminante ali.
           Assim que eles se foram, Kelly e eu nos olhamos, sorrimos meio acanhados, e não me recordo de quem foi a iniciativa, mas demos as mãos e mergulhamos na escuridão. Enquanto fazíamos a travessia, permanecemos em silêncio, como dois cegos a caminho de um precipício. As mãos paralisadas, não sei se por medo de algum marginal sair do nada e nos esquartejar ou por medo do que poderia vir ao chegar ao nosso destino.
            Quando a luz voltou a nos iluminar já estávamos no clube. O deserto à nossa volta parecia nos ilhar. Não havia escapatória. O encontro enfim iria se concretizar. Ali parados olhando um para o outro, não sabia o que fazer. Senti pânico, quis voltar pra casa, não queria mais brincar daquilo. Kelly parecia também não saber o que fazer ou esperava alguma reação minha. Mas a reação que veio não foi minha. De súbito, a luz do clube, a única luz que nos distinguia naquela escuridão se apagou.
              - Não se preocupe, a luz daqui se apaga às vezes.
              - Você já sabia disso?
            É, ela sabia! E com isso veio se aproximando de mim. Mas naquele escuro, num clube chamado Além e com uma luz que tinha vontade própria, definitivamente eu não iria conseguir focar em namoro.
              - É melhor a gente esperar a luz voltar – sugeri.
           Enquanto aguardávamos, puxei conversa sobre a peça que a catequista iria montar para a festa do padroeiro. Kelly sugeriu que eu participasse. Mas eu lhe disse que não teria coragem de encarar toda a multidão do patamar da igreja. Rimos. E em meio a esse papo saudável a luz do clube retorna. Era hora. Kelly se aproximava de mim enquanto eu me afastava aos poucos até a parede me deter. É, vamos acabar logo com isso! O beijo estava prestes a sair quando ouvi um barulho estranho na mata.
              - O que foi isso? – perguntei.
              - Algum bicho.
         Ficamos olhando curiosos para o matagal. Como nada mais aconteceu, voltamos ao ponto em que paramos. E de repente outro barulho. Agora olhamos mais atentos. Conseguia sentir minha respiração enquanto meus olhos farejavam a origem daquele ruído na mata. E de novo o barulho, agora bem mais longo. Num rompante, saímos correndo e gritando desembestados sem olhar pra trás.
           Só conseguimos parar quando Ritinha se aproximou na bicicleta preocupada com os gritos. Difícil mesmo foi tentar entender o que acontecia. Não sei quem estava mais apavorado. E naquela bagunça, uma risada conhecida. Ravier saíra “se mijando” de rir de dentro da mata. Era ele? Como ele pôde fazer aquilo? Eu realmente fiquei com medo. E ele ali rindo da nossa situação, aquela risada tão cúmplice, tão companheira, tão gostosa, que eu conhecia profundamente. Acabei esquecendo o susto e me divertindo junto. Quem não parecia nada feliz era Kelly. Oh, ela! Vamos encerrar essa tortura de uma vez por todas, né? Saímos daquela escuridão e encontramos o local do crime atrás de um caminhão F4000. Ali ela me envolveu e mergulhou seus lábios nos meus. Argh! Que molhadeiro mais nojento!
             Cheguei em casa ainda atordoado com o novo homem que acabara de nascer em mim. Ainda comi umas sobrinhas de pipoca que encontrei na tigela. Minha mãe me encheu de perguntas. Agora era real, seu menino tinha mesmo ido se encontrar com uma menina mais velha. – “Estão namorando?” Entre suas advertências, não deveria beijá-la mais na boca, não era apropriado. Não entendo como poderia namorar alguém sem fazer isso. Mas mesmo assim, o namoro durou ainda uns dois meses, só com beijinho no rosto, e nunca na frente de alguém. Até que eu decidi terminar do mesmo jeito que comecei, inesperadamente! A única recordação boa que guardei daquele encontro foi mesmo o susto que Ravier nos deu. Sem querer, ele me livrou de uma daquelas tentativas traumáticas de Kelly, e ainda conseguiu levar diversão àquilo tudo. Na verdade, teria preferido mesmo passar a noite inteira discutindo os Cavaleiros do Zodíaco com ele. Adorava sua companhia. Com Ravier sentia que meu mundo poderia perder as cores, que ele arranjaria uma maneira de colorir. Tamanha satisfação, restava apenas entender: por quê?

dezembro 06, 2011

O encontro [parte I]

Eu entrei na sala todo arrumadinho. Cabelo molhado, tênis, bermuda, camisa desamassada.
- Vai pra onde assim?
Foi minha mãe quem perguntou. Ela não estava sozinha. Meus avós assistiam televisão um pouco mais a frente, enquanto uma tia minha e duas primas que estavam de visita terminavam de comer pipoca no sofá.
- Vai se encontrar com aquela menina.
Respondeu minha prima mais nova, enciumada. Não, ela não era a fim de mim, apenas não queria dividir o primo com quem brincava com mais ninguém. Principalmente perder uma noite de travessuras na casa da avó. Eu não dei muita atenção ao seu comentário. Por um instante as nossas brincadeiras pareceram infantis demais ao meu mundo. Estava crescendo. Era evidente! E aquela noite representava o primeiro passo da minha transição. Queria ser como os garotos da minha idade das novelas, que saíam à noite e namoravam.
A menina a que minha prima havia se referido era Kelly, uma garota três anos mais velha, que eu tinha conhecido no catecismo. Ritinha, a prima dela, me disse que ela estava interessada em mim, e eu querendo parecer maduro, coloquei na cabeça que tinha que ficar com ela, assim acabei marcando um encontro.
Demorou um pouquinho para perceber que apenas ‘eu’ acreditava nesse encontro, nem mesmo a própria Kelly. Minha mãe teria vibrado com a possibilidade de conhecer a primeira nora, mas a pequena diferença de idade, que naquela fase representava muito, atrapalhou. Ela dizia que uma garota de 14 anos já tinha muitas experiências pra namorar um menino de 11. O ideal seria eu encontrar uma garota da minha idade. Ela não bateu muito na tecla porque não estava levando a sério meu encontro. Mas contrariando todas as expectativas, saí de casa e fui para a praça principal.
Em pouco tempo, encontrei meu amigo Ravier e ficamos conversando enquanto chegava a hora marcada. Alguns minutos depois, Kelly e Ritinha passam. Mas não fui atrás delas, o encontro era somente às 7h, e na pracinha do cemitério. Simplesmente as cumprimentei e avisei que estava indo para o local. Elas apenas riram. Ravier me acompanhou até a pracinha e depois me deixou lá sozinho esperando Kelly. O tempo passou e nenhum sinal de encontro no ar. Comecei a me sentir um bobo. Seria possível que Kelly não estivesse mesmo a fim de mim e teria apenas me enganado com Ritinha? De repente essa ideia começou a ser um alívio, seria uma saída razoável dessa situação inusitada que criei sem nem medir as consequências. Mas logo bateu o nervosismo quando vi Kelly se aproximar.
Ela não parecia normal. Estava agitada, inquieta. Me levou para o outro lado da pracinha, bem em frente ao cemitério mesmo e confessou só ter ido porque Ravier a tinha convencido de que eu realmente a estava esperando. Não sei quem ficou mais surpreso, se eu por perceber finalmente o papel de palhaço que tinha feito ou Kelly em descobrir que eu falava sério sobre o encontro. Olhei pra ela, sentei no banquinho, observei a fachada do cemitério e só um pensamento rondava minha cabeça: “o que é que eu tô fazendo aqui?”. Na televisão era tão simples. Os meninos marcavam os encontros e na sequência de cortes muitas vezes nem víamos o que acontecia. Eles só curtiam a imagem de namoradeiros. Mas a cena ali era real e ela, uma garota "bem mais experiente", esperava alguma atitude do retardado ali.
Somente aí me dei conta da besteira que estava fazendo. Criando um problemão que não sabia como resolver. E agora o que faria? Daria logo um beijo e voltaria pra casa? Mas e depois? Iríamos ficar namorando? Mas por que diabos eu fui inventar isso? Querendo me livrar logo daquela situação, me aproximei dela todo desengonçado na intenção de beijá-la. Mas para minha surpresa ela se virou.
- Aqui não! Minha tia mora aqui perto e pode passar a qualquer hora.
Nem foi preciso dizer mais nada. Ritinha e Ravier se aproximaram correndo numa bicicleta, que surgiu não sei de onde
- Sua mãe tá vindo aí. Disseram a ela que te viram com um menino aqui.
A tensão que se instalou com o aviso de Ritinha de fato me alegrou muito. Ótimo! Agora vamos cada um pra sua casa e fingimos que essa noite não existiu. Não vejo a hora de comer pipoca na casa da minha avó e brincar de novo com minhas primas.
- Vamos descer por aquela rua!
Hã? Kelly estava mesmo interessada em fazer a noite valer a pena. Para meu desespero.
- A gente vai atrás de vocês pra ter certeza que sua mãe não vai te encontrar.
Pronto! Teríamos até plateia. Digno de um roteiro de cinema. Se eu queria parecer algum galã, agora com certeza acabara de ganhar o papel central em um thriller macabro, no qual o mocinho seguia de encontro à morte ainda na primeira cena.

novembro 23, 2011

Um natal em homofobia

Era natal, eu me divertia com meus primos e com os primos dos meus primos jogando baralho, tinha sido minha grande descoberta naquelas férias, e logo o meu vício. Começamos apostando dez centavos, depois vinte e cinco, cinquenta e um real. Ganhei algumas partidas, mas perdi muitas também. Era época de “Você Vai Ver” de Zezé Di Camargo & Luciano nas rádios, de “Alô” de Roberto Carlos e “Com Você” de Sandy e Junior. Era tudo que ouvíamos diariamente nas estações da cidade. Diferente dos anos anteriores, naquele ano não estávamos passando as festas de fim de ano na casa da minha avó com a família, mas na capital, na casa das irmãs da mulher do meu tio, que também estava lá, ou seja, a casa estava cheia.
Apesar de saber que teria muita criança na casa, minha mãe resolveu se precaver e convidou um amigo meu do interior para viajar conosco, assim se eu não me entrosasse com ninguém, teria Fred para me fazer companhia. Mas essa precaução acabou se revelando desnecessária, já que logo me vi na maior amizade com os meninos de lá. Brincávamos de ludo, damas, dominó, esconde-esconde, e claro, baralho, o carro-chefe das diversões. Vez por outra, me via mexendo na bolsa da minha mãe, à procura de novas moedinhas que garantissem minha participação no jogo.
Eram umas férias diferentes e muito divertidas. Acompanhadas de praia, caranguejo, passeios de trem e de barco, lojas de brinquedo e até de artesanato, onde adquiri um cigarrinho de madeira que guardo até hoje. Tudo ia muito bem até que uma simples brincadeira transformou tudo. Na televisão daqueles tempos, a sessão da tarde não era muito diferente, passava muito Ghost, A Lagoa Azul e As Tartarugas Ninjas, mas o grande destaque estava mesmo na Rede Manchete, com Os Cavaleiros dos Zodíaco. Era a novidade que chegava hipnotizando toda a garotada. Eu, particularmente, não havia me interessado ainda, e com isso, não perdia a chance de encher o ouvido dos meninos com minhas opiniões depreciativas.
Naquela noite, contudo, o conflito esquentou. Todos os meninos estavam vidrados diante da tevê assistindo os heróis japoneses, as meninas brincavam de jogo da memória na varanda e a calçada estava tomada pelos adultos. Eu queria alimentar meu vício do baralho, mas as meninas só iriam se todos participassem, e os meninos não abririam mão de mais um episódio da série. Eu estava sobrando. E assim fiquei transitando entre a sala e a varanda, tentando arrancar alguma diversão disso.
Quando estava na varanda, ficava enviando pistas erradas para as meninas perderem no jogo, o que as irritava. Quando chegava à sala, não parava um segundo de falar mal do desenho enquanto os meninos assistiam. Resumindo, virei o chato da noite. Sem aguentar mais, Fred lançou um desafio entre as minhas idas e vindas. Se eu voltasse de novo para a sala enquanto eles assistiam a série, eu era uma “mulherzinha”. Uma brincadeira boba, que eu mesmo já tinha feito com outros colegas. Poderia ter sido a “mulher do padre”. Que diferença faria? Eu não deixaria de ser homem por isso.
Com o desafio no ar, fui novamente ver o jogo das meninas. Mas depois de algum tempo, já as tinha enchido o suficiente, precisava perturbar os meninos agora. E assim, dei a volta pelos fundos, entrei no quarto, coloquei um boné e fui me chegando aos pouquinhos na sala, para que ninguém me percebesse. Bobagem! Em pouco tempo Fred tinha me visto e começava a me chamar de “mulherzinha”. Tudo bem, eu estava rendido. Não era um homem de palavra. Mas o pior estava por vir. Enquanto recebia o ataque verbal de Fred, minha mãe surgiu na sala. Paralisei ali mesmo. Conhecendo a tolerância dela para esse tipo de brincadeira, eu sabia que ela não deixaria aquilo passar.
Primeiro ela perguntou a Fred o que significava aquilo, e antes mesmo dele responder, já começou a acusá-lo, a lembrá-lo que ele estava ali porque ‘ela’ o tinha levado, que ele devia, no mínimo, respeito a mim. Fred ficou todo desconcertado. Eu me senti um réu no tribunal do júri, enquanto o advogado defendia meus crimes. Aquela cena me era extremamente humilhante. Minha mãe criando caso na frente de todos os meninos, por uma estúpida brincadeira de criança. Se não gostava, chamasse a atenção e pedisse para parar, sem fazer escândalo. Mas o clima estava instalado. Fui para o quarto chorar e minha mãe fechou o tempo. Pronto! Era o fim das férias animadas.
No fundo me sentia acabado pelo que acontecera. Não devia ter provocado os meninos. Não devia ter retornado à sala. Mais que isso! Eu devia ser mais macho como meus primos. Achava todos tão mais homem do que eu. Eu era um molenga. Se não o fosse, minha mãe não precisaria defender minha virilidade e eu não teria que passar por situações como aquela. Pobre Fred! Estava numa saia justa. A pessoa que havia pagado suas despesas e o mantinha ali tinha entrado em conflito com ele. Nem ir embora ele podia. Mas essa era exatamente a decisão de cabeça quente da minha mãe, voltar os três para casa no dia seguinte.
Enquanto desabafava com os adultos na calçada, a situação se agravou mais ainda, quando ela percebeu que as cunhadas do meu tio estavam do lado de Fred nessa confusão. E para completar, a mulher do meu tio saiu com essa:
- Quando a gente tem um filho com problema, não deve esconder.
Foi o que faltava para minha mãe a incluir na lista podre da família, e posteriormente cortar relações. Apesar de tudo, minha mãe acabou sendo convencida a ficar até o fim das férias. Pediu desculpas a Fred no dia seguinte, mas o clima tenso na casa permaneceu até o último dia. Foi a última vez que pisamos ali.
Como previsto, a família do meu tio foi literalmente banida do nosso convívio nos anos seguintes. Mas nada que o tempo não cicatrize, ou mude o eixo. Oito anos depois, meu tio e a mulher chegaram para passar o natal na casa da minha avó. Era tempo de refazer os laços, de esquecer antigas mágoas e celebrar a união. Minha mãe estava visivelmente exultante com a chegada deles. Fez questão de levá-los para rever a cidade, e não perdeu a chance de apresentar-lhes a minha namorada como um troféu. Afinal, o tempo mostrara que seu filho não tinha problema algum.

novembro 22, 2011

Conhecendo um travesti

A notícia que minha tia chegara dizendo aquela manhã era realmente inusitada. Um homem que havia virado mulher. Eu estava na casa da minha avó, provavelmente brincando ou vendo TV, mas não pude deixar de prestar atenção na conversa entre ela, minha avó e minha mãe. A figura em questão era um garoto que fora vizinho da minha avó antes de eu nascer. Pelo que diziam, um menino esperto, obediente, tranquilo e muito educado. Um modelo de filho para toda mãe de uma cidadezinha de interior. Ainda mais se ele fosse adotado.
Carlinhos, como era chamado, passara sua infância quase despercebido na cidade, enevoado pela superficialidade de um bom menino. Mas sua popularidade estava prestes a mudar. Quando entrou na adolescência, ele foi estudar fora e até então nunca mais havia aparecido na cidade. Sua mãe falecera na capital e lá mesmo ele se despediu dela, sem comparecer ao enterro no interior. Mas agora ele estava voltando para morar com sua irmã, e o seu retorno causaria um grande burburinho na cidade. Carlinhos agora era Carla.
Foi assim que fiquei sabendo da novidade pela minha mãe. Como aquilo era possível? Um homem ir embora e voltar mulher? Fiquei me lembrando dos bonequinhos que vendiam nas barraquinhas da festa do padroeiro, que com algumas mudanças nas peças era possível mudar o sexo. Aquilo me intrigou. Minha tia fazia questão de enfatizar como ele era quando moleque e como estava agora. Um ar de curiosidade, espanto e diversão se misturavam em seu relato. Uma expressão que pude notar também na minha mãe e na minha avó.
- Vão lá fazer uma visita a ele agora – sugeriu minha tia.
Essa visita estava longe de ser a prática da boa vizinhança para dar as boas-vindas ao filho da terra. Era puramente motivada pela curiosidade na figura que o garoto havia se transformado. Carlinhos... Carla era o espetáculo gratuito do mais novo circo da cidade. E como público cativo, não era possível perder essa nova atração. Não me recordo se fiz questão em ir junto ou se me levaram para mostrar um exemplo de ser humano deplorável. O fato é que numa determinada noite, minha mãe, minha avó e eu estávamos lá, batendo à porta de sua casa.
Quem nos recebeu e nos fez sala foi Zilar, a irmã de Carla. Sempre muito simpática e receptiva, conversou um pouco conosco enquanto Carla não chegava. Ela, ao menos aparentemente, tratava tudo com muita naturalidade. Se algum tipo de preconceito circulava em sua cabeça, ela sabia guardar somente pra ela. Eu olhava sempre curioso, à espera de que a qualquer momento Carla aparecesse na sala e eu pudesse finalmente ver o homem que virou mulher.
Não demorou muito e lá do quarto, Carla surgiu. Sapato alto quase coberto por uma longa saia no bom estilo hippie (embora na época eu não fizesse a associação), uma blusa regata, cabelos escuros e longos e um batom suave na boca. As expressões do rosto não deixavam dúvida. Era um homem vestido de mulher. Então era só isso? Ele não tinha virado mulher, apenas se vestia como uma. Por quê? Acho que minha curiosidade era evidente, mas Carla devia estar acostumada com a reação de surpresa das crianças ao vê-la e não se importou. Minha mãe e minha avó a cumprimentaram cordialmente. E minha avó soltou aquela clássica frase de quando não se vê uma pessoa há muito tempo.
- A última vez que eu te vi você era desse “tamainho”.
Pois é, o tempo havia passado e Carlinhos crescera, até onde eu não imaginava ser possível. Ele tinha seios! Como um homem poderia ter seios? Tudo bem que ele se vestisse de mulher, mas como conseguiu que os peitos crescessem? Aquilo roubou totalmente meu foco. Queria uma explicação, mas não ousaria fazê-la ali. Sequer prestei atenção na conversa que desenrolou entre elas, sobre a vida de Carla desde que saiu da cidade e a mudança que se deu em sua identidade.
Quando fomos embora, ainda na calçada fiz a primeira pergunta.
- Afinal ele é homem ou mulher?
- Homem, mas prefere ser mulher – minha mãe respondeu.
- Por quê?
- Porque ele quer. Saiu daqui um moleque “véi” e a gente nunca imaginou que ele fosse virar isso.
- Se ele é homem, então por que tem peito de mulher?
Essa, minha mãe não soube responder ao certo. Atribuiu aos hormônios, a todo tipo de tratamento e cirurgia. Silicone não era popular naquela época e era muito pouco provável que ele tivesse colocado algum. Ainda assim fiquei curioso. Estava acostumado com a figura do homem e da mulher, e Carla misturava os dois. Não sabia que pronome deveria usar para defini-la. Só uma coisa eu sabia, ela não era bem vista.
E foi assim que fui descobrindo que além do homem e da mulher, havia outra figura, uma que mesclava os dois gêneros e que as pessoas davam vários nomes. Carla foi sinônimo de “veado” por muito tempo na cidade, e apesar de ser travesti, era essa a definição que carregava nas ruas, muito mais pelo fato de se vestir de mulher do que por se envolver com homens. Para todos, Carla era a bicha, a Barbie, a boneca. Enquanto morou na cidade, ela sofreu todo tipo de piadinha e falatório, até que foi embora de vez e nunca mais eu tive notícias suas. Mas Carla era só o primeiro contato que eu teria com as diversas formas de sexualidade humana, em breve eu conheceria outra bem mais perto do que poderia imaginar.

novembro 21, 2011

Coisas de menina

            Primeira coisa:
Todo ano meus primos passavam o natal na casa da minha avó, já era uma tradição. Os parentes dos lugares mais distantes do país vinham para festejar o nascimento de Cristo em família. Gente que não se suportava fingia ternura e harmonia. Cada qual com suas queixas, intrigas, opiniões, invejas e instinto competitivo prestes a saltar ao menor vacilo. Mas tudo era aparentemente camuflado, até algo novo surgir bem no meio de todos os presentes. E poderia vir do mais simples detalhe.
Como a maioria dos meus primos eram meninas, era natural que com elas viessem também as mais modernas bonecas do mercado. Eu ficava encantado com aquele arsenal de Barbies e Kens com várias roupas, carros, móveis, eletrodomésticos. Os bonecos dos meninos eram tão sem graça, a gente nem podia mudar a roupa ou trocar o penteado deles. Quando ninguém estava olhando, eu pegava o Ken ou uma das Barbies e ficava examinando, sentindo o movimento dos braços e pernas, colocando alguns para andar. Por que eu não podia ter um daqueles?
Depois do almoço, as meninas se juntavam no quarto e começavam a brincar, trocavam as bonecas, mostravam as novidades que cada uma tinha. Eu ficava observando no canto da porta com uma vontade de me juntar a elas, mas sabia que só por olhar eu já poderia ser recriminado. Uma das minhas primas mais novas ao me ver, me convida ingenuamente para brincar. Aquele convite parecia a liberdade, mas logo minha prima mais velha me põe no lugar.
- É melhor você não vim, senão sua mãe vai ver e vai botar a culpa na gente.
É, ela tinha razão, eu não deveria ser o responsável por estragar o clima de harmonia da família. Nem muito menos queria todos me apontando como estranho. Era melhor ir para a calçada e ver o carro de controle remoto do meu primo.

Segunda coisa:
Toda tarde eu escutava a fita k-7 de Xuxa que minha tia havia gravado para mim. Eu gostava de ficar cantando e dançando no quartinho do quintal da minha avó. Um dia chegou de visita uma prima mais velha. Juntos passávamos horas lá, comíamos pipoca, brincávamos, sempre ouvindo Xuxa. Até que minha mãe me disse:
- Por que você não dá essa fita pra sua prima? Ela gosta tanto de Xuxa. E essas músicas são mais pra meninas.
Mas eu também gostava. E Xuxa não era a rainha dos baixinhos? Ou seria só das baixinhas? Uma semana depois, minha prima viajou com minha fita.

Terceira coisa:
A cada três meses, no máximo, era a mesma tortura. Cabelo passando demais da orelha era o sinal para cortar. Eu detestava ir ao cabeleireiro, ele sempre cortava demais, mesmo se eu levasse uma foto para mostrar como queria. E minha mãe era incisiva.
- Tem que cortar! Vai virar menina agora com cabelo grande?
Eu só queria um cabelo um pouquinho maior, de modo que eu não parecesse um poodle tosado depois do corte. Por muitos anos, o dia do cabeleireiro era tão somente comparado à visita ao dentista. Até que Sandy e Junior vieram ao meu auxílio. Explorando minha veia artística, comecei a dublá-los em festinhas na cidade, e assim, minha mãe concordou em me deixar com o cabelo de Junior. Durante algum tempo, o mullet me ajudou a me manter longe daquele barulhinho infernal da máquina de corte.

Quarta coisa:
Sem poder ter as bonecas e as casinhas das minhas primas, eu criava minhas próprias estratégias para ter o queria. Com os bonecos que eu tinha, simplesmente transformava alguns em mulher, e acreditava tanto naquilo que nada mais me faria ver o boneco como homem. Assim, constituía as famílias. Minha mãe, mais uma vez, se preocupou.
- Casinha é brincadeira de menina. Homem brinca é de guerra.
Cheguei a ser ameaçado de perder os bonecos, caso eu insistisse naquilo. Foi então que descobri como driblar o inimigo. Criava as casas e as famílias e depois montava uma guerra em cima. Soldados matavam pais, filhos, irmãos. Tudo era destruído. Minha mãe agora estava feliz. Aquele tipo de brincadeira sim era saudável.

Conclusão:
As mães acham que se evitarem o contato dos filhos com o “universo feminino” quando são crianças, estarão evitando que eles se "tornem" gays no futuro. Quanta ignorância!

novembro 20, 2011

Primeiros sinais

Percebi desde o início que algo diferente havia em mim, embora não soubesse explicar exatamente o que seria. Fui um garoto muito tímido. Tinha medo de me expor, de me aproximar das pessoas, de ficar envolto a muita gente. Meu pai era um homenzarrão forte, robusto, alto, que só pela sua presença, já me transmitia segurança. Adorava deitar sobre a sua barriga e ficar puxando os pelos do seu peito. No fusquinha branco que possuía, gostava de andar sempre em pé entre ele e minha mãe, quase em cima do freio de mão. Esses passeios foram realmente momentos preciosos, que jamais tornariam a se repetir. Não sei exatamente como, mas a música Deslizes de Fagner sempre me traz de volta essas lembranças, muito embora minha mãe afirme que o carro do meu pai não tinha toca-fitas.
Morávamos numa pequena cidade de interior. Minha mãe era uma jovem aventureira, disposta a conhecer as possibilidades que o mundo tinha a oferecê-la. Já meu pai era um aposentado do exército quando a conheceu. Conhecido pela sua generosidade com os menos abastados e o sucesso do seu charme com as mulheres. Os 28 anos de diferença entre ambos não se mostrou um empecilho para o envolvimento deles. Depois de alguns anos entre rede, lençóis, televisão e gargalhadas, eis que fui concebido, e eles oficializaram a relação ao morar juntos.
Cheguei ao mundo rodeado de muito carinho e amor da família. Fui crescendo naquele mundo azul celeste, sem conhecer muito a verdadeira realidade do mundo. Tudo ou quase tudo que desejasse eu acabava obtendo de uma maneira ou de outra. Mas tinha uma coisa que eu nunca consegui. Sempre sonhava com um irmãozinho com quem eu pudesse brincar junto, e apesar de insistir com minha mãe, ela nunca mais teve outro filho. Talvez em consequência de sua separação do meu pai algum tempo depois, e por, de alguma forma, considerá-lo insubstituível. Ele, ao contrário, não ficou sozinho por muito tempo e em mais alguns anos ganhei outros meios-irmãos. Digo "outros" porque meu pai já tinha tido outros filhos antes de mim. Na sua lista oficial eu era o quinto.
Essa separação ocorreu quando eu ainda tinha 4 anos e acabou atrapalhando muito o meu relacionamento com meu pai. Com a perda do contato, em virtude da distância, aliado à minha timidez, me sentia quase um estranho em sua presença. Nunca mais fui o garoto que arrancava seus pelos na cama. Agora sozinho com minha mãe, apesar da forte presença da minha avó, alguns traços da minha personalidade começavam a aflorar. No meu íntimo, sentia que havia determinadas situações que gostava de vivenciar, mas que minha mãe não as permitia, desaconselhando completamente. Logo percebi que também havia sentimentos que deveria ocultar dela, se não quisesse enfrentar problemas.
No ano de 1991, então com 6 anos, comecei a intensificar um hábito de minha mãe, que eu já vinha explorando desde meus primeiros contatos com a televisão: as telenovelas. Minha mãe era uma noveleira insaciável, acompanhando uma após outra, sofrendo, torcendo e consumindo todos os tipos de padrões de comportamento e beleza transmitidos. O contágio foi imediato, e logo me vi na mesma situação. A novela Felicidade, de Manoel Carlos, encantava o país àquela época. As crianças Bia e Alvinho eram o grande destaque da trama. Lá em casa, todo mundo torcia pelo bem da menina, achavam-na mais doce, mais inteligente, mais bonita. Eu, particularmente, preferia o menino, me sentia bem mais ligado a ele. Queria brincar com ele, abraçá-lo, cuidar dele. Sem entender exatamente o porquê, sabia que devia fazer segredo desse meu sentimento.
Mal sabia eu que aquilo era somente o início de uma luta interna, que duraria quase duas décadas. Sempre gosto de pensar o que teria acontecido se, por acaso, não tivesse tido receio em expor ao mundo minhas verdadeiras sensações. Com certeza teria enfrentado muitas discussões com minha mãe, teria tido uma infância em constante conflito com ela. Será que seríamos tão apegados como fomos? Será que ela me entenderia com o tempo ou viveria decepcionada e envergonhada da condição do filho? Eu não queria correr o risco, talvez por medo de criar uma barreira entre nós, semelhante a do meu pai. Preferi, quem sabe inconscientemente, manter a aparência de normalidade alimentada por ela, e anular o que sentia de fato. Era mais fácil. E ela era minha mãe, queria a minha felicidade e deveria saber o melhor para mim. Então por que sentia às vezes que o importante pra ela nem sempre correspondia ao que era pra mim? Nesse mundo desumano e insensível que começava a aparecer, o garotinho de 6 anos tinha muito que aprender ainda.

novembro 19, 2011

Preliminares

Olá, futuros leitores do Diário de um Gay Incomum. É bom finalmente encontrar um espaço para compartilhar minhas experiências escondidas. Somos arremessados muito cedo contra as grandes muralhas  sociais e perdemos a nossa identidade antes mesmo de encontrá-la. Afinal somos a "escória", o "submundo escuso e sombrio da sociedade". Não quero afirmar que todos os gays passem ou tenham passado pelos mesmos processos que eu, daí por ser incomum. Contudo, algumas características são inerentes aos homossexuais, e muitos as encontrarão no decorrer dos meus textos, outras, porém, pertencem particularmente a mim.
Sou um gay incomum em muitos aspectos. Começo afirmando que hoje aos 26 anos ainda sou praticamente virgem. Isso é realmente incomum! Mas calma lá. Não sou nenhum casto imaculado. Simplesmente minha vida seguiu rumos inesperados, ou complexos demais, e as minhas atitudes me levaram a um processo íntimo de reclusão. Mas já andei experimentando algumas coisinhas. Poucas! Mas não seria eu se fosse diferente. E por que não fui mais adiante então? Tudo a seu tempo! Em breve essas perguntas encontrarão respostas em futuros textos.
Meu intuito aqui é explorar o meu conturbado passado trazendo de volta momentos significativos da minha formação. Encontrar quem sabe, respostas para muitas situações vividas por mim hoje. A ideia é espalhar todas essas peças responsáveis pela construção de quem sou. Partilhar as peripécias de um garoto que, como muitos, percebe sua identidade sexual na pré-adolescência e encontra um mundo despreparado e disposto a negá-lo como ser humano. Aquelas muitas histórias que só os gays conhecem e enfrentam. Tantos medos, inseguranças, incertezas... O que cada um faz a partir desse momento é o que constrói a sua particularidade e torna caras tão incomuns como o que vos fala. Acreditem! A mente e a sexualidade humana escondem abismos tão profundos e inexplorados que podem fascinar e abater o cidadão mais comum.