abril 04, 2012

As brumas do amor

Daí que revirando os arquivos do coração, me lembrei dele. Pode não ter sido a grande chama da minha vida, mas foi o mais próximo do significado de amor que senti. Acho que o conheci num site de relacionamento. Abel. Trocamos contatos, conversamos, nos vimos pela webcam, e parece que ambos estávamos satisfeitos com o que havíamos encontrado. Me lembro ainda daquele domingo de jogo do Brasil pela Copa da África, quando enfim nos conhecemos. Eu passara o dia inteiro editando o vídeo-documentário do trabalho de conclusão de curso com mais duas amigas no meu apartamento. Fizemos o almoço, lavamos a louça e acompanhamos animados, o desempenho da seleção. Decorridos os 90 minutos e seus acréscimos, não demorou muito e encerramos as atividades. Em pouco tempo, estava na internet e recebia o convite para conhecê-lo.
Controlando a ansiedade, tomei mais que depressa o caminho do chuveiro, escolhi uma roupa bacana que não ficasse nem muito alinhada, nem muito simples, e desci para esperá-lo. Ele morava relativamente próximo, e logo vi seus passos firmes em um tênis escuro se aproximar. Não gosto de ficar descrevendo os traços físicos das pessoas, parece que a estamos pondo à venda, mas do que me cabe relatar, posso dizer que ele tinha um sorriso meigo, um braço forte e uma mão sensível. Caminhamos um pouquinho e ele sugeriu que conversássemos no banco do ponto de ônibus. Ali? Não! Se não se importa, vamos subir, afinal, pra que serve morar sozinho?
Abrindo a minha casa, abria um pouco da minha vida também. Permitia àquele quase estranho, o acesso aos registros da minha história, na mobília, na organização paranóica do apartamento, no estilo da decoração, e claro, nas fotografias da família. Mas estava disposto a compartilhar. Contando que ele não considerasse aquilo, de minha parte, uma segunda intenção do nosso encontro. Claro que eu desejava algo mais daquela noite, mas poderíamos ir devagar. Ele sentou numa cadeira e eu sentei ao lado. Que nervoso! Olhava para seu rosto e só conseguia rir. Nem lembrei de ligar a tevê, mas quem iria se ligar em qualquer transmissão com um programa bem melhor do lado?
Na pressa, só tinha iogurte de graviola para oferecer. Mas aos poucos a conversa fluiu. Falamos de convivência e dos atritos na casa da avó dele, da sua mãe que mora no Rio, de sua relação com os primos mais novos, e claro, da vida oculta que a família ainda não sabia, mas que ele também não fazia questão de esconder. Pincelei alguns pontos da minha vida, revelando a minha completa inexperiência, e logo estávamos sem assunto. Mãos em leve fricção pela coxa. Até que encontrei coragem de tocar seus dedos. O que é um tocar de dedos? Nada. Mas ali significava cruzar limites, atravessar fronteiras, dar vida e forma à minha essência mais verdadeira sem culpas.
E tão logo senti os contornos da sua palma forte e leve sob meus dedos, senti sua outra mão a percorrer alguns fios do meu cabelo pela nuca. Não resisti e fui explorar sua região também. Como era diferente do pescoço feminino. Não havia a suavidade dos traços característicos das mulheres. Havia outro desenho, que me provocava jubilosas sensações pelo corpo. Foi ao me envolver nesse contato que quando percebi, estava mergulhado em seus lábios. E como era bom beijar! Não era o primeiro homem que eu beijava, mas com certeza o primeiro a quem me entregava de verdade. Nos levantamos e continuamos naquele estado. Braços e cabeças em constantes movimentos, quase numa dança íntima. E eu nunca tinha dançado antes com outro homem, nunca tinha abraçado assim. Em algum lugar dentro de mim, senti que minha alma dava pulinhos de alegria.
Foi quando ele me perguntou se poderia conhecer meu quarto. Como negar tal pedido? Deitado na cama, ele se aninhou em mim, acariciou meu rosto, afagou meu cabelo e me cobriu de beijos. Fiquei ali contornando seu rosto, as entradas do seu cabelo, suas orelhas, sentindo a textura da sua pele, examinando cada minúcia, enquanto ele, de olhos fechados, relaxava. Deus, como aquilo me deixava feliz! Queria gritar ao mundo a minha felicidade. Queria ligar para minha mãe apenas para informar a indescritível alegria que emanava do coração do seu filho naquele momento. O mundo poderia acabar desde que eu estivesse ali com ele. Como precisamos de pouco para ser feliz. De repente, seu celular toca. Um amigo o convidando para tomar um chopp.
- Não, outro dia. Tô bem melhor aqui.
Respeitando sempre minha inexperiência, se propôs a me mostrar algo. Me levou até a parede, me roçou, me amassou, me deixou sem ar e falou: “te apresento o sarro”. Caímos na gargalhada. Mas com a hora avançando, ele precisava ir embora. Não, sua presença me fazia tão bem. Não queria mais aquela velha solidão. Mas como conseguir isso? Antes tivesse parado aí, mas a sede foi mais forte. Minha mão deslizou até sua virilha e em poucos minutos estávamos despidos sobre a cama, buscando ver nossa fonte de mais intenso prazer jorrar. Banhados pelo orvalho, outro processo começou a se operar em mim. Aquele estado de completa satisfação foi abrindo a porta para as inconstâncias.
Bastou ele sair e a preocupação tomou conta de mim. Por que tínhamos que ter manchado aquela experiência única com a precipitação? Como me envolver assim de novo com um desconhecido? Não bastavam as últimas consequências? Olhei para o tarja preta na escrivaninha e tomei logo dois. Abel me ligou nos dias seguintes, mas meu estado de espírito era um poderoso repelente. Meu ritmo era outro, eu sabia. E precisei de três meses para entrar em contato de novo, até descobrir que o tempo dele também não era o mesmo. Perdi a chance de desenvolver uma produtiva relação. Mas quem domina o psicológico? Naqueles poucos minutos ao lado de Abel na cama, eu conheci o amor.

26 comentários:

  1. entregar-se assim faz parte. ninguém sabe onde a gente pode encontrar o amor.

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    1. É verdade! Acho que o amor e a felicidade quando caminham juntos são vitais.
      E será que eles se separam?

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  2. Meu amigo... eu te entendo e como te entendo, para alguém que até se alegra em dizer que não tinha coração como eu, posso lhe assegurar que tudo tem seu tempo!

    Cabe a você escolher se vai se permitir mais cedo ou mais tarde, mas um dia, do nada, alguém descobre como desarmar todas as nossas defesas e a gente entende. Novas questões, novas dúvidas, mas agora com uma certeza que no final de tudo o que importa é amar e ser amado. Não se preocupe se ainda não conheceu o amor, prepare-se para quando ele chegar, você estar pronto para ele! ...

    Abração!

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    1. Sim, Latinha, tudo a seu tempo.
      E que ele, o tempo, nos prepare a seu tempo.

      Abração!!

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  3. A vida é feita de oportunidades. E essa, vc deixou passar. Mas surgirão outras. Aproveite.

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    1. Pois é, Raphael, deixei passar, mas foi necessário mesmo.
      E tbm não posso garantir que irei agarrar a próxima oportunidade, mas pensarei bem melhor antes de descartar.

      Abração!

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  4. que esta reflexão te ajude a se reencontrar e aprender q a vida nem sempre nos perdoa as oportunidades perdidas querido ... abra-se e permita-se ... vc ainda tem muito tempo pela frente ... mas não perca as oportunidades ...

    bjão

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    1. Braccini, perder oportunidade é uma questão complexa comigo.
      Se eu tivesse deixado me envolver com Abel, poderia ter dado certo, mas provavelmente eu teria surtado.
      Conheço meu psicológico e sei até onde consigo ir sem agredi-lo.
      Mas assim que ele me permitir avançar sem traumas, pode ter certeza que não perderei mais oportunidades.

      Abração!!

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  5. assim, cá entre nós, vc passa 8 anos mentindo pra si mesmo e quer ter encontrado o amor? não acha q vc precisa antes se aceitar? esse processo começou apenas agora.

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    1. Oi, Foxx, bom, pelo que eu vejo hoje, eu já me aceitei.
      Não tenho problema algum em me ver como gay hoje, pelo contrário, acho um privilégio.
      Ser gay, ter o conhecimento mais abrangente da sexualidade humana é para poucos!! rs
      A questão é que ainda não consegui me assumir, chegar para alguém durante uma conversa sobre gays e dizer, "cara, eu sou gay e não é assim ou é desse jeito".
      E a questão não tem nem a ver com vergonha ou preconceito, mas com meu jeito de ser.
      Não gosto de me expor, sou muito reservado, e não converso nem sobre outros assuntos menos polêmicos com as pessoas.
      Mas o tempo vai me ajudar nisso tbm, tenho certeza!

      Abração!!

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  6. Agora começou a ficar interessante! Tenho certeza que virão mais coisas boas... através de textos, pra nós, ou através de experiências, pra você. E que depois, se transformarão em belos textos pra nós... como é bom viver, né!

    Abração

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    1. Pois é, Cesinha, aos poucos minhas poucas experiências com outros caras vão preenchendo algumas páginas desse diário, até esbarar de vez no momento em que estou, e outras histórias irem surgindo.
      E viver é isso, né?
      Uma página nova a cada dia. = ]

      Abração!!

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  7. Sumido! Vamos marcar de almoçar qualquer dia desses!

    O meu único medo ao deixar alguém entrar na minha casa e a análisa que a minha bagunça pode levar alguém a fazer hahaha

    E quem domina o psicológico? Alguns poucos, mas esses são tão calculista e malucos que seu domínio é questionável hahaha.

    Beijo doido!

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    1. Pois é, Lobo, estou retomando as atividades por aqui.
      Vamos marcar qualquer dia.
      Pôr os papos no lugar. rs

      Abração!!

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  8. Adorei seu texto, e só queria te dizer uma coisa: o tempo de cada um é diferente do tempo do outro. Mas um dia, quando ambos acham que vale a pena, quando ambos estiverem preparados, quiserem verdadeiramente o outro, ajustam seus relógios e se reencontram.
    Se ele não voltou, não quis, não foi porque vc demorou, esqueça isso! Se ele quisesse, buscaria esse ajuste de relógios.

    E isso não quer dizer que ele não tenha gostado! Não questione nunca os motivos do outro! Esses encontros quase sempre são assim mesmo. Deixam a gente com vontade, quando valem a pena, mas nem sempre o outro quer...

    Um dia você conhecerá o amor, e verá que, mais do que acontecer pronto na sua vida, ele é, antes e acima de tudo, uma construção.
    Ao contrário da paixão, que pode acontecer assim, num encontro, o amor é algo que leva um tempo, cresce com o tempo, fica cada vez melhor. Não é algo que se apresentará pronto e acabado!

    Abração

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  9. Sei que não é original, mas, foi inevitável pensar na letra de uma música que adoro. Então, parafraseando o Jota Quest, você quer um amor maior. Um amor de dentro pra fora. Amor que você desconhece. E ele virá.
    Bjaum.

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  10. Nossa seu relato apesar de ser singelo, é de arrepiar, o primeiro contato com o outro, quando é especial, realmente é marcante...

    Um abraço!!!!

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  11. Uma semente que pode brotar, se a gente quiser "construí-la". Esse amor, danadinho...

    Mas fica tranquilo que o encontro pode acontecer...

    Abraços!

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  12. Olá =)
    Gostaria de conversar mais com você...

    Poderia me adicionar no messenger? paulomendes_tec@hotmail.com

    Abraço

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  13. Conselho: fica sem amar, é menos dolorido!

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  14. eu ja amei alguém, mas nunca me senti amado. E foi ao transar com o meu melhor amigo que me senti amado, mas ele preferiu investir no namoro dele, que não anda muito bem. e eu fiquei so, novamente, sem saber como agir. sem saber o que sentir.

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  15. Oops!... I Did It Again. Acho que esse post faz cair por terra uma de suas características descritas: "virgem", ou não, né? :p

    B.H.

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  16. Interessante.
    Nas minhas primeiras relações com homens, eu me sentia mal e arrependido depois de vivê-las. Passava meses sem procurar de novo, e era comum até antes dos meus 20. Não tinham, porém, o mesmo nível de intimidade quanto essa que vc descreveu, eram bastante mecânicas.

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    1. Ah, mas nas minhas primeiras relações tbm me sentia completamente arrependido.
      O primeiro pênis que eu peguei (depois do meu rsrs) me deixou completamente angustiado.
      Fiquei semanas sem nem pensar em me envolver de novo com um homem.
      Era muita culpa, muito grilo.
      Com Abel eu já estava mais habituado, ao menos psicologicamente, pra me deixar levar.

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  17. Gay Incomum: vc não faz ideia de como seus textos são bons e o quão lamentável foi você ter parado de escrever. Visito seu blog constantemente na esperança de que vc tenha retomado seu projeto.

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  18. Você escreve muito bem! Parabéns, me perdi nas suas historias, muito bom mesmo! *-*

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