janeiro 02, 2012

E a ficha caiu

A puberdade havia chegado, e com ela, outras grandes transformações. Minha perna começava a ficar cabeluda, a voz dava os primeiros sinais de mudança, e eu já não levantava mais os braços sem camisa, para que ninguém notasse o que crescia nas minhas axilas. Sempre que lembrava, carregava uma tesoura para o banheiro e cortava alguns pelos indesejados na virilha, embaixo do braço e até um ou outro que aparecia pelo rosto. Era minha maneira de dizer ao corpo que ainda não estava preparado para aquela nova mudança. Me deixasse ser criança só mais um pouquinho. Mas os hormônios não se sensibilizaram com meus apelos, e logo me vi um adolescente.
De todas as mudanças que a puberdade me trouxe, a maior e mais angustiante foi a direção que a minha libido tomou. Desde pequeno já sentia um carinho especial pelos meninos, mas nada que fosse além de um desejo de cuidar e estar próximo. Agora, eu começava a olhar melhor os pés de alguns, as pernas de outros, as expressões do rosto, as cicatrizes que traziam. E tudo aquilo mexia comigo de alguma forma. De repente, os meninos começaram a ficar mais interessantes do que já eram.
Mas foi só quando folheava mais uma das revistas da Hermes, que minha mãe recebia para fazer pedido, que a ficha caiu com o orelhão todo nos meus pés. Parado na seção masculina da revista, meus olhos se viram fixados nas figuras de cueca daquela página. Eu sabia que aquelas fotografias estavam me atraindo já há algum tempo, mas não conseguia entender exatamente a razão. Naquele dia, porém, tudo se esclareceu.
Nunca fui bom em matemática, mas somar dois mais um, não era tão difícil assim. Quando notei o grau de excitação em que os cuecudos me deixavam, lembrei as sensações que os meninos estavam provocando em mim e revi minha infância com todas as crises que enfrentei, a explicação só era uma: gay! Eu era gay! Na mesma hora, larguei a revista e me tranquei no banheiro. Os neurônios fritando de um lado para o outro. Minha imagem no espelho. Eu... aquele! Não poderia ser gay! Não era gay! E a revista? E os meninos? Que droga! Não! Não podia ser verdade. Minha mãe! E meus filhos? Ela me mataria. E todo mundo? Por que comigo? Merda!
Agora tudo fazia sentido. O apreço maior que eu sempre tive pelo sexo masculino. As pessoas que insinuavam que eu era “veado”. As constantes brigas que minha mãe traçava para me defender. As piadinhas na escola. O primeiro beijo que não gostei. As namoradas que não me despertavam nada. A admiração absurda pelo meu amigo Ravier. A sensação de não pertencer a um grupo. O isolamento. O medo de me expor. O medo das pessoas. Era isso. Afinal todos estavam certos. De nada adiantou minha mãe revidar todas as ofensas que recebi. No fim, acabei gay do mesmo jeito.
Eu não era um garoto afetado, desses que se nota de longe a tendência à homossexualidade, ao menos não me sentia um. Sempre tinha os grupinhos na escola que soltavam suas piadinhas comigo, mas eu também não era o único a sofrer com isso. E minha timidez contribuía para aumentar o interesse deles em me perturbar. Vamos mexer com os quietinhos! Como minha mãe se metia com qualquer um que me provocasse, muitos se aproveitavam disso e me atacavam dizendo que não podia se mexer com o filho da valentona. Eu não gostava disso porque no fundo sentia como se eles estivessem certos.
Não sei exatamente o que havia no meu comportamento que despertava a atenção de alguns sobre a minha sexualidade. Mas estava certo de que não era como Ricardo, o menino que todos chamavam de “veadinho”, e que parecia pouco se importar ou até gostar daquilo. Não, eu não era assim. E não seria. Mas e se fosse e não percebesse? Se ao sair na rua eu agisse exatamente igual a Ricardo? Eu não queria aquilo para mim. Todos falando mal pelas minhas costas e até pela frente. Era muito triste. Decidi. Não sairia mais de casa, além da escola. Foi assim que saí do banheiro naquele dia depois do baque. Olhei para minha mãe e lamentei duas vezes, o filho que ela sonhava que eu fosse e o filho que eu nunca seria.
Por quase três anos, me fechei para tudo que o mundo pudesse me oferecer, mais do que eu já fazia. Confinado em casa, vendo... ou melhor, não vendo a vida passar, adiava minha juventude o máximo possível, enquanto fazia dos bonecos, o mundo que eu perdia. Eles eram a minha melhor realidade. Até os poucos amigos que tinha, foram embora. Não consegui separar a amizade da atração por Ravier e me afastei dele. Virei um garoto completamente solitário. Mas não me sentia infeliz. Estava consciente da minha condição, vivendo aquilo que a vida me reservara e tentando passar o mais invisível possível.
Os únicos problemas eram as festas da cidade, o São João e o padroeiro, quando todo mundo comprava roupa nova e saía nas ruas para receber elogios. Minha mãe insistia que eu precisava sair também. Quando as datas se aproximavam, eu já sabia, mais uma semana em pé de guerra. Uma noite ela praticamente me forçou a vestir uma roupa e sair com ela. Mesmo naquele clima de mau humor, ela queria me ver no meio da multidão como as pessoas “normais”. Eu me sentia um idiota, parado feito um poste, enquanto todo mundo se sacudia em minha volta. Se alguém me olhasse, mesmo que eu não fizesse nada, sentia como se já soubesse da minha condição. Entendo que minha mãe queria que eu tivesse minha vida social como qualquer um, mas será que ela não percebia que aquilo tudo ali só me deixava pior?
A “libertação” só veio aos 15 anos quando saí de casa para estudar na casa da minha tia, na cidade vizinha. Lá, eu era estranho, o novato, ninguém me conhecia. Comecei a perceber naquilo uma nova chance. Agora eu poderia ser quem eu quisesse sem o peso do passado nas minhas costas. Era hora de se reabrir para a vida, de voltar a ter amigos, sair e, talvez, namorar. Tomei então a segunda decisão desde que tive conhecimento da minha sexualidade. Decidi viver como hétero.

18 comentários:

  1. Quando a ficha cai, de fato a gente sente o mundo virando do avesso... pior é quando tudo faz a gente ser o que não podemos ser...

    Comigo a ficha só caiu depois que me vi apaixonado por um colega. Antes, eu olhava sim outros caras, mas pra mim era um olhar do tipo "o que ele tem que eu não tenho"... mero engano...

    Enfim... viva a máscara heterossexual!

    Abraços!

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  2. eu tb naum enxergava o q as pessoas viam em mim, eu sempre soube q era gay, mas eu não entendia o q as pessoas viam, como eles descobriam, hoje eu consigo ver.

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  3. Mate uma curiosidade: nessa idade,os hormônios estão daquele jeito.kkkk.Como vc fazia para se segurar? Masturbação pensando em que?hauhauha.
    Beijos,querido.

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  4. desejos-e-bocejos.blogspot.com30 de dezembro de 2011 14:16

    Eu acho que essas situações chegam a ser dramáticas. São sentimentos que as pessoas "de fora" nao compreendem, só mesmo quem passa por eles.
    abç

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  5. Desde muito pequeno, sempre senti algo diferente pelos meninos. Somente fui entender do que se tratava qdo a "ficha caiu" a respeito da minha orientacao sexual.

    Ja na adolescencia, eu me encontrava numa situacao de ter que comprar revistas e filmes pornograficos heteros para nao poder chamar a atencao de ninguem (sabendo apenas no meu intimo, que apenas a figura masculina me excitava).

    Quando voce descobre, seu mundo acaba e tudo o que vem a sua mente e: Por que comigo???

    Durante um tempo eu neguei a todo custo, depois aceitei e pensei que poderia viver como hetero... Quando a primeira recaida veio senti a necessidade de me abster do mundo e de me curar disso (como se fosse uma doenca). E, finalmente, convencido de que nao havia o que fazer a respeito, chega o momento de erguer a cabeca, lutar e viver isso, deixando todos cientes da sua condicao.

    E muito dificil abrir o jogo para as pessoas, principalmente quando ninguem nota, ate mesmo muitos gays... Confesso que essa ultima fase ainda nao consegui passar... Somente pessoas muito muito intimas sabem...

    Estou de ferias na casa dos meus pais e hj, durante um churrasco de familia, meu avo de 82 anos me dava conselhos a respeito de casamento e formacao de uma famiilia... Enquanto ele me aconselhava, sentia um forte aperto no peito por saber que nao posso desapontar pessoas tao importantes na minha vida e que esperam uma conduta que jamis ira acontecer: namoro, casamento, filhos, etc.

    Apesar de sempre ter tido minhas ambicoes quanto a minha carreira e de ser um jovem focado nos meus estudos, atualmente me utilizo do fato de estudar fora para poder ser eu mesmo e dar vazao as minhas vontades: procurar rapazes para conhecer ao inves de mulheres.

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  6. Minha ficha não caiu de uma vez. Foi um processo tão longo...

    Abraços!!

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  7. Minha ficha também não caiu de uma vez. Mas quando caiu também, meu pensamento foi de seguir a solidão eterna invés de enganar as pessoas me passando por hetero. Preferi viver como assexuado. Claro que não aguentei nada. Só uns 6 anos. E quem aguenta?

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  8. Gente, estive viajando, por isso não respondi nada ainda.
    Aos pouquinhos vou me reorganizando de novo.
    E desde já obrigado a todos pelos comentários e pelo carinho aqui.

    Abração!!

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  9. Lobinho, eu sempre me masturbei pensando em homem. Vendo as fotos dos caras de cuecas das revistas.
    Uma simples foto de um cara de short curto com as pernas de fora já me excitava.
    Embora não quisesse aceitar, dentro do banheiro eu era a minha mais pura natureza sem nenhuma censura.

    Abração!! =)

    **************

    Jardineiro, vc não deve pensar que irá desapontar pessoas importantes da sua vida, por não fazer o q eles esperam de vc.
    Seu avô apenas dividia com vc, as experiências de vida dele, experiências, que ele julga que serão úteis pra vc.
    O q não significa que se vc não segui-las estará desapontando-o.
    Ele já está com uma idade avançada para conseguir assimilar a sua condição e refazer os valores.
    Mas nunca se sabe!
    E o mais importante de tudo q eu aprendi, é não deixar q ninguém, além de vc mesmo, construa o seu futuro. Por melhor q seja o futuro q seu pai, sua mãe, seu avô sonhem pra vc, se não for o que vc quer de verdade, ninguém nunca será feliz.

    Bom te conhecer, Jardineiro!
    Quero que escreva logo no seu blog para vermos até onde somos comuns e onde começamos a ser incomuns. =)

    Abração!!

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  10. Minha ficha demorou muito a cair. No fundo, o medo me impedia de aceitar o que todo mundo já desconfiava, e muitos já sabiam... Há coisas que a gente nunca consegue esconder.

    Aos poucos, aprendi que há como ser feliz. A sexualidade é importante, mas é apenas um detalhe na vida! Um detalhe que dá muita dor de cabeça quando não se está no grupo majoritário, mas, ainda assim, e sempre, apenas um detalhe!

    Paz e felicidades a todos!

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  11. Puxa. Eu também dedicava uma atenção maior e diferente para a seção de cuecas nos catálogos Hermes da minha avó.

    Também fui bastante recluso, quando percebi ser gay. Fechei-me ainda mais, quando meus pais descobriram. Só que decidi manter-me gay. Fugia das garotas que quisessem algo a mais, pois não desejava iludi-las e, com isso, chateá-las.

    Por essa razão que eu nunca beijei ou transei com uma garota. OK. Beijei uma única guria, quando tinha cinco anos. Mas acho que isso não conta...

    Abraços! E feliz 2012.

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  12. Quando a ficha caiu para mim, quase entrei em desespero, devido a preconceitos religiosos... Passei a me isolar, para não chamar a atenção, e não permitir ninguém desconfiasse. É interessante como as experiências das pessoas são semelhantes. Eu também prestava atenção à seção de cuecas de catálogos de compras.
    NFL

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  13. Ninguém é preparado para descobrir-se gay. Mas quando o processo termina, não há nada mais prazeroso do que olhar no espelho e dizer: "Eu te amo exatamente assim".

    Beijos da Scarlet

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  14. Adorei suas palavras Scarlet.
    A Mascara Hetero é a coisa mais
    triste, tem um peso de sofrimento
    muito grande.

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  15. Não sei quando a ficha caiu e se caiu...
    Mas o seu relato me pôs a pensar nisto, o que sei é que quando contei a minha mãe ela disse que já sabia e que nada iria mudar entre a gente, eu ainda era o amigo dela...
    Isto foi muito importante para mim.
    Forte abraço!!!

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. Fiquei quase paralisado de tanto que me identifiquei..

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